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Poder-se-ia pensar que uma fortuna de 9 milhões de dólares seria o resultado de um prémio chorudo na lotaria ou de uma herança inesperada. Contudo, no caso de Sylvia Bloom, o caminho para a riqueza foi traçado com discrição, observação e uma fidelidade inabalável ao mercado de capitais. Esta secretária de Brooklyn, que trabalhou no mesmo escritório de advogados durante quase sete décadas, deixou o mundo boquiaberto ao revelar, apenas após a sua morte, o tamanho do seu património.

Uma Estratégia Baseada na Observação

Sylvia não frequentou cursos avançados de finanças, mas possuía um “lugar na primeira fila” para observar as mentes mais astutas do Direito e dos Negócios. Durante os 67 anos em que trabalhou na prestigiada firma Cleary Gottlieb, ela geria não só a agenda, mas também os investimentos pessoais do seu patrão.

A sua técnica era de uma simplicidade brilhante: sempre que o seu chefe lhe ordenava que contactasse o corretor para adquirir acções de uma determinada empresa — como a gigante AT&T —, Sylvia executava a ordem para ele e adquiria uma pequena quantidade desses mesmos títulos para si. Com um salário modesto, ela replicava as decisões de quem tinha acesso à melhor informação, provando que optimizar os recursos disponíveis é mais importante do que o montante inicial investido.

A Ilusão da Renda Fixa e o Poder das Acções

Muitos investidores da geração de Sylvia optaram pela segurança aparente dos depósitos a prazo ou dos certificados de aforro. No entanto, Sylvia compreendeu cedo que a inflação é a maior inimiga da “renda fixa”, transformando-a, muitas vezes, em “perda fixa”. Ao escolher investir em acções e manter esses títulos durante décadas, ela permitiu que os juros compostos fizessem o trabalho pesado.

Frugalidade: A Arte de Viver com Discrição

A vida de Sylvia e do seu marido foi marcada por uma modéstia que em nada denunciava a sua conta bancária. O casal viveu sempre num apartamento arrendado, apesar de possuírem meios para adquirir propriedades de luxo em Manhattan. Esta característica de “milionário despretensioso” é comum a figuras como Ronald Read ou o casal Donald e Mildred Othmer (amigos de Warren Buffett), que preferiam a segurança do capital acumulado ao exibicionismo do consumo imediato.

O segredo foi tão bem guardado que nem os familiares mais próximos suspeitavam que Sylvia tinha o seu capital distribuído por 11 instituições bancárias e 3 corretoras diferentes.

Um Legado de Ouro para a Educação

Sylvia Bloom faleceu aos 96 anos e, no seu testamento, demonstrou que a sua acumulação de capital tinha um propósito maior. A maior parte da sua fortuna — cerca de 8,2 milhões de dólares — foi destinada a fins filantrópicos. O donativo de 6,24 milhões de dólares à Henry Street Settlement tornou-se um dos maiores da história da instituição, sendo canalizado para bolsas de estudo destinadas a jovens carenciados.

Filha de imigrantes e criada durante a Grande Depressão, Sylvia nunca esqueceu as suas origens. O seu percurso deixa-nos uma lição fundamental: não é necessário um salário de executivo para atingir a independência financeira. Basta astúcia para identificar boas oportunidades, disciplina para poupar e a paciência necessária para deixar o mercado maturar os frutos do nosso trabalho.

Hélder Pereira

Hélder Pereira é analista financeiro. Foi nomeado para os Prémios Rankia Portugal 2024 e 2025 na categoria de "Melhor analista financeiro", tem mais de 20 anos de experiência nos mercados financeiros, formação em Contabilidade e em Direito, e conhece extensivamente a tradição do "value investing", desde Benjamin Graham a Warren Buffett, e mais além: Peter Lynch, Terry Smith, Luiz Barsi, entre outros. Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.