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Muitos acreditam que o sucesso no mundo dos investimentos está reservado a quem frequenta as melhores universidades ou trabalha em grandes centros financeiros. A história de Verna Oller, que faleceu aos 98 anos, prova precisamente o contrário. Esta mulher, que viveu com uma simplicidade extrema, surpreendeu o mundo ao deixar uma fortuna de 4,5 milhões de dólares à sua comunidade.

A dualidade de um carácter: Frugalidade e Generosidade

Verna era conhecida pelo seu temperamento forte e por uma avareza que raiava o lendário. Recusava-se a gastar dinheiro no cabeleireiro e preferia comprar vestuário em lojas de segunda mão. Há uma anedota reveladora: quando os seus amigos Guy e Carolyn Glenn lhe ofereceram um casaco novo, comprado em promoção, Verna devolveu-o prontamente. Tinha encontrado uma alternativa por apenas 2 dólares. Para ela, a utilidade de um objecto sobrepunha-se sempre ao luxo ou à novidade.

Contudo, sob esta capa de austeridade, escondia-se uma profunda bondade. O seu objectivo final não era acumular por vício, mas sim para servir o próximo.

O segredo de uma vida marcada pelo trabalho manual

Até aos 70 anos de idade, a rotina de Verna estava longe do conforto dos escritórios; trabalhava a cortar peixe, recebendo um salário à hora. Mesmo aos 90 anos, mantinha o vigor físico de carregar a sua própria lenha. Durante décadas, manteve em segredo a sua verdadeira condição financeira, confiando apenas nos Glenn para guardar o mistério: a pacata vizinha era, na verdade, uma milionária.

A sua educação financeira não proveio de cursos académicos, mas da auto-didáctica. Durante um quarto de século, Verna leu religiosamente publicações como o Wall Street Journal e a revista Barron’s. O seu domínio era tal que chegou a aconselhar a família Glenn sobre quando comprar acções da AT&T, aproveitando momentos em que os títulos estavam subavaliados para obter retornos superiores a 50%.

Investir vs. Especular: A lição do “Sr. Mercado”

Antes da crise financeira de 2008, a sua carteira de investimentos chegou a superar os 5 milhões de dólares. Verna compreendia perfeitamente a filosofia de Benjamin Graham: o mercado é como um sócio maníaco-depressivo (o “Sr. Mercado”) que todos os dias nos oferece um preço. O investidor inteligente ignora o ruído e as oscilações diárias, focando-se apenas nos resultados das empresas e aproveitando os momentos de pânico para comprar “bons papéis” a preços sensatos.

Enquanto o especulador tenta prever o futuro para lucrar com a volatilidade, o investidor, como Verna, prefere a posse de negócios sólidos a longo prazo.

Um legado que transcende a morte

O grande desejo de Verna era que a sua fortuna fosse utilizada para construir uma piscina coberta em Long Beach, na Califórnia. Vivendo junto ao mar, entristecia-a saber que as crianças não tinham um local seguro para nadar, devido à perigosidade das águas da costa. Além da piscina, o seu testamento previa bolsas de estudo e apoio a docentes locais.

Curiosamente, após o seu falecimento, o projecto da piscina enfrentou entraves municipais. Enquanto o impasse se mantinha, o capital de Verna continuou a crescer, gerando dividendos e provando que o seu dinheiro “continuava a trabalhar”.

Verna Oller partiu sem querer honrarias, funerais pomposos ou sequer um obituário. A sua herança é dupla: a generosidade material que beneficiou a sua terra e o exemplo intelectual de que a poupança e o investimento são as ferramentas mais poderosas para a liberdade. Ela juntou-se, de forma humilde mas eficaz, à linhagem de grandes mestres, como Warren Buffett e Charlie Munger, demonstrando que a paciência e o conhecimento são os melhores activos de um investidor.

Hélder Pereira

Hélder Pereira é analista financeiro. Foi nomeado para os Prémios Rankia Portugal 2024 e 2025 na categoria de "Melhor analista financeiro", tem mais de 20 anos de experiência nos mercados financeiros, formação em Contabilidade e em Direito, e conhece extensivamente a tradição do "value investing", desde Benjamin Graham a Warren Buffett, e mais além: Peter Lynch, Terry Smith, Luiz Barsi, entre outros. Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.